terça-feira, 17 de agosto de 2010

ALGUMAS QUESTÕES DE POESIA VI

Outro aspecto que o poema aponta para rica discussão é a mistura de poesia e prosa, como aparece na estrofe (“Em coro a turma toda rosna/contra a mistura de poesia e prosa”). Ora, pelo menos, desde a década de 20 a prosa se tornou poética e a poesia, prosaica, de modo mais intencional do que em estilos anteriores. E até o uso da fala no poema, como ocorre em Colóquio, já existia na primeira fase do Mo-dernismo. O contágio da poesia pela prosa e vice-versa tem sido enriquecedor para a literatura, no entanto, por razões didáticas, vale a pena estabelecermos algumas diferenças entre as duas formas, até para justificar os termos “prosa poética”, “poema em prosa” ou “poema prosaico”.
É claro que muitas obras, principalmente da segunda metade do século passado para cá, foram apresentadas como poemas, o que nos levaria a uma noção de texto, abolindo quaisquer diferenças entre poesia e prosa. Como não achamos que a distinção seja aprisionadora, defendemos o uso dos termos e o seu reconhecimento. Nas últimas três décadas, temos visto que poetas, com medo de escreverem na linha de uma tradição, preferiram escrever em prosa e chamá-la de poesia, para fazerem algo diferente. Neste caso, a única diferença entre poesia e prosa seria a utilização da palavra no espaço em branco, o que nos parece demasiado simplista. Primeiro, não vemos por que temer a tradição; segundo, porque cremos que há diferenças várias que podem caracterizar a poesia, distinguindo-a da prosa, seja um conto, um romance ou uma peça teatral.
Podemos analisar vários poemas de Manuel Bandeira para discutir a presença da prosa na poesia e as suas variações. Sugerimos Pneumo-tórax, Poema tirado de um notícia de jornal, Noturno da rua da Lapa e O desmemoriado de Vigário Geral. Seria bom aproveitarmos estes textos para vermos as diferenças entre um universo prosaico e a linguagem prosaica. Os temas do cotidiano passam a conquistar espaço na poesia pós-modernista e o linguajar de gírias e expressões populares também, mas isto não significa que ambos estejam sempre juntos.
Que tal depois propormos o seguinte exercício? Escolhem-se poemas dos anos 20 para cá a fim de serem reescritos linearmente, sem a disposição em versos. Se o texto puder ser lido como um mini-conto ou minicrônica, por que chamá-lo de poema? E, ainda, se qualificamos tal poema de prosaico é porque no fundo sabemos que certas características textuais identificam a prosa, diferençando-a do poema. Então por que fingirmos que poema e prosa são a “mesma” coisa?

                                                                               Marcus Vinicius Quiroga

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ALGUMAS QUESTÕES DE POESIA V


Na sétima estrofe, o poeta diz que o poema “não deve exibir cenas de nexo”. Primeiro, a substituição da palavra sexo, como seria de se esperar na frase, pela rima nexo causa a surpresa do humor. Técnica de humor à parte, a questão da arte hermética e inacessível também foi um dos valores do século XX. E, em muitos casos, podemos dizer que, quanto mais sem nexo, mais valorizado é o texto, sendo a falta de sentido identificada como o poético, a literariedade.
Temos que ter cuidado para mostrar a diferença entre uma proposta surrealista, que valorizava o arbitrário e o inconsciente, e o uso desconexo de palavras com a pretensão de ser literário. O surrealismo foi, sem dúvida, o movimento do início do século que teve mais desdobramentos, ainda que no Brasil só Murilo Mendes tenha sido reconhecido como poeta surrealista a merecer atenção. Mas há, por exemplo, em São Paulo um grupo de poetas surrealistas que é infelizmente pouco conhecido,  por razões óbvias de falta de divulgação da poesia, e faz jus a nossa leitura. Isto só para mostrar que, muitas décadas depois, esta “vanguarda’’ do início do século XX ainda tem ressonâncias.
Estamos diante de uma questão delicada: como objetivamente podemos dizer que o poema não tem nexo ou que ele tem um nexo próprio, uma coerência literária, que não pode ser lida pela lógica externa? Talvez seja um bom momento para falarmos da linguagem metafórica ou de figuras de linguagem. Várias destas figuras podem ser exemplo da “falta” de sentido, porque, na verdade, estão criando outro sentido, usando formas, há muito já estudadas e estabelecidas.
Só para lembrar, tiremos algumas figuras de Colóquio: metáfora (“ Poesia é matéria de fino esmeril.”), antítese (“sabem falar vazio de boca cheia.”), símile (“é como pimenta em doce de castanha.”)...


Marcus Vinicius Quiroga 












segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ALGUMAS QUESTÕES DE POESIA IV

O dístico seguinte “Mais de três linhas é grave heresia,/ pois há de ser breve a tal poesia.” diz respeito à decantada concisão poética. Aqui é bom lembrar que textos épicos, raros na literatura brasileira, são normalmente mais longos, porque são narrativos, apresentam uma história com personagens heroicos; já a poesia lírica, predominante em toda literatura, tende a ser mais condensada.
Cabe também fazer referência a uma característica do século XX, a da valorização de textos mais curtos e mais “enxutos”, em parte pela influência da linguagem jornalística na linguagem literária. E isto não ocorre só na poesia, mas também na prosa. A literatura dita retórica ou discursiva do século XIX para trás é muitas vezes mal vista e a capacidade de síntese da linguagem passa a ser uma categoria de valor. No Poema-Orelha, de Carlos Drummond de Andrade, os versos finais dizem: “a poesia mais rica/ é um sinal de menos”. Não é também por acaso que a tese de doutorado do autor do poema Colóquio sobre a obra de João Cabral de Melo Neto se chama A poesia do menos. É inegável, portanto, que a linguagem condensada, sintética, enxuta é um dos objetivos dos poetas posteriores ao Modernismo, em oposição à poesia excessivamente discursiva e tagarela.
Nas décadas de 50 e 60, com as chamadas vanguardas da época (o concretismo, o neoconcretismo, o poema processo, a poesia práxis) o ideal de texto breve passou a ser programático e obrigatório. O verso muitas vezes se resumiu a uma palavra, ou a sílabas, atingindo o silêncio (a ausência total de palavras) em algumas realizações poéticas do período.
A expressão “grave heresia” do poema, com seu sentido de censura irônica, nos faz pensar que certas vanguardas, com seu caráter autoritário e seu discurso excludente, estabeleceram que o poema deveria ser de fato feito com poucos versos ou mesmo com poucas palavras, não aceitando o que transgredisse esta norma. Já nos anos 70 houve uma poesia que, sem pretender fazer oposição aos princípios concretistas, mas por outras influências e razões, mostrou-se bastante discursiva para os padrões da época. E de lá para cá, ainda que a brevidade seja apreciada, os poemas voltaram a ter mais liberdade e mais variedade de tamanho. Lembremo-nos ainda de que a condensação da linguagem não corresponde apenas (ou exatamente) ao tamanho do texto, o que seria simplista.
Outro motivo para que os poemas tenham se encurtado no século passado deve-se à questão da relação do leitor com o tempo e isto ocorreu em todas as artes. O tempo de duração de filmes e peças teatrais tem, de um modo geral, diminuído ao longo das décadas. Isto não significa que não haja romances de 500 páginas ou mais sendo escritos e lidos. Mas é bom registrar a crescente preferência do leitor e do espectador por obras menores, devido à falta de tempo e de hábito. Ou seja, a relação do leitor com a linguagem e o tamanho do texto também se modificam por razões alheias à literatura.

Marcus Vinicius Quiroga





segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ALGUMAS QUESTÕES DE POESIA III


Este talvez seja um bom momento para falarmos sobre a diversidade temática, não só falando dos chamados temas eternos e universais, como dos circunstancias e particulares. Podemos mostrar que, embora certos temas não sejam exclusivos de épocas ou estilos, de alguma forma os caracterizaram. Ou que o tratamento dado ao mesmo tema (por exemplo, a morte) serve para diferençar um poema barroco de outro romântico; ou para aproximar um poema árcade (a natureza, por exemplo) de outro modernista, de intenção ecológica.
No caso de Colóquio, o tema é a própria poesia, daí termos dito acima que se trata de um texto metalinguístico, pois o autor se vale da poesia para falar da poesia. Ainda que o século XX não tenha tirado patente da metalinguagem, ela é uma das características de todas as artes deste século. Isto não equivale a dizer que os artistas do século anterior sejam melhores do que os de outros séculos, mas que são mais interessados em discutir o próprio fazer criativo.
Na 5ª estrofe temos o dístico “Aquele jamais atingirá o paraíso./Seu verso contém a blasfêmia e o riso”. Ora, o humor não é uma característica típica ou exclusiva da poesia. Na verdade é mais fácil de ser encontrado na prosa, no romance picaresco, na sátira, nas crônicas; na poesia, temos também textos satíricos, mas a predominância é lírica. Entendemos aqui que o riso se opõe à seriedade, ou, como disse João Cabral em Antiode, “contra a poesia dita profunda’. A opinião que desqualifica o poema por buscar o riso parece, por simples inversão, valorizar o texto supostamente sério e/ou profundo. Trata-se de uma questão antiga fora da poesia. No teatro há a tendência em valorizar a tragédia ou o drama em detrimento da comédia e, mesmo nos dias atuais, é comum a associação da peça cômica a um teatro de pouca qualidade, voltado apenas para a bilheteria. Opiniões preconcebidas à parte, a desqualificação do riso é histórica.
Repetimos: neste verso parece-nos que a crítica se dirige à falta de seriedade e aí podemos ver subentendida uma concepção de poesia.Ou seja, poesia corresponde a um texto profundo só voltado para questões filosóficas e existenciais. Como exemplo, temos o autor do texto objeto: sua obra se marca pelo humor em suas diversas matizes e ao mesmo tempo pela seriedade de poemas como A Fernando Pessoa e pelo lirismo de poemas como Margem. Dizemos isto para mostrar que a poesia tanto pode servir ao texto filosófico quanto ao irônico, ao amoroso, ao político e que um poeta pode escrever textos diversos e de qualidade.
O humor requer técnica e apresenta variedade significativa de expressão, não podendo, portanto, ser desprezado. Na nossa literatura, por exemplo, temos Gregório de Matos, mais estudado por seus poemas líricos e religiosos do que por suas sátiras, como comprovam os livros didáticos. Seu “riso crítico”, ainda que mais abundante, cede lugar aos exemplos de poemas religiosos do Barroco e aos poemas de amor. Seria censura? Conveniência didática? Ou cópia viciada de outros livros?
Seja lá o que for, o que queremos dizer é que o riso, como aparece em uma fala deste poema, serve para diminuir o mérito do autor, que a ele só se dedica. E soa como uma espécie de censura e conselho: poetas devem escrever sobre temas sérios que são mais perenes.



 Marcus Viniciuis Quiroga