O dístico seguinte “Mais de três linhas é grave heresia,/ pois há de ser breve a tal poesia.” diz respeito à decantada concisão poética. Aqui é bom lembrar que textos épicos, raros na literatura brasileira, são normalmente mais longos, porque são narrativos, apresentam uma história com personagens heroicos; já a poesia lírica, predominante em toda literatura, tende a ser mais condensada.
Cabe também fazer referência a uma característica do século XX, a da valorização de textos mais curtos e mais “enxutos”, em parte pela influência da linguagem jornalística na linguagem literária. E isto não ocorre só na poesia, mas também na prosa. A literatura dita retórica ou discursiva do século XIX para trás é muitas vezes mal vista e a capacidade de síntese da linguagem passa a ser uma categoria de valor. No Poema-Orelha, de Carlos Drummond de Andrade, os versos finais dizem: “a poesia mais rica/ é um sinal de menos”. Não é também por acaso que a tese de doutorado do autor do poema Colóquio sobre a obra de João Cabral de Melo Neto se chama A poesia do menos. É inegável, portanto, que a linguagem condensada, sintética, enxuta é um dos objetivos dos poetas posteriores ao Modernismo, em oposição à poesia excessivamente discursiva e tagarela.
Nas décadas de 50 e 60, com as chamadas vanguardas da época (o concretismo, o neoconcretismo, o poema processo, a poesia práxis) o ideal de texto breve passou a ser programático e obrigatório. O verso muitas vezes se resumiu a uma palavra, ou a sílabas, atingindo o silêncio (a ausência total de palavras) em algumas realizações poéticas do período.
A expressão “grave heresia” do poema, com seu sentido de censura irônica, nos faz pensar que certas vanguardas, com seu caráter autoritário e seu discurso excludente, estabeleceram que o poema deveria ser de fato feito com poucos versos ou mesmo com poucas palavras, não aceitando o que transgredisse esta norma. Já nos anos 70 houve uma poesia que, sem pretender fazer oposição aos princípios concretistas, mas por outras influências e razões, mostrou-se bastante discursiva para os padrões da época. E de lá para cá, ainda que a brevidade seja apreciada, os poemas voltaram a ter mais liberdade e mais variedade de tamanho. Lembremo-nos ainda de que a condensação da linguagem não corresponde apenas (ou exatamente) ao tamanho do texto, o que seria simplista.
Outro motivo para que os poemas tenham se encurtado no século passado deve-se à questão da relação do leitor com o tempo e isto ocorreu em todas as artes. O tempo de duração de filmes e peças teatrais tem, de um modo geral, diminuído ao longo das décadas. Isto não significa que não haja romances de 500 páginas ou mais sendo escritos e lidos. Mas é bom registrar a crescente preferência do leitor e do espectador por obras menores, devido à falta de tempo e de hábito. Ou seja, a relação do leitor com a linguagem e o tamanho do texto também se modificam por razões alheias à literatura.
Marcus Vinicius Quiroga
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