Outro aspecto que o poema aponta para rica discussão é a mistura de poesia e prosa, como aparece na estrofe (“Em coro a turma toda rosna/contra a mistura de poesia e prosa”). Ora, pelo menos, desde a década de 20 a prosa se tornou poética e a poesia, prosaica, de modo mais intencional do que em estilos anteriores. E até o uso da fala no poema, como ocorre em Colóquio, já existia na primeira fase do Mo-dernismo. O contágio da poesia pela prosa e vice-versa tem sido enriquecedor para a literatura, no entanto, por razões didáticas, vale a pena estabelecermos algumas diferenças entre as duas formas, até para justificar os termos “prosa poética”, “poema em prosa” ou “poema prosaico”.
É claro que muitas obras, principalmente da segunda metade do século passado para cá, foram apresentadas como poemas, o que nos levaria a uma noção de texto, abolindo quaisquer diferenças entre poesia e prosa. Como não achamos que a distinção seja aprisionadora, defendemos o uso dos termos e o seu reconhecimento. Nas últimas três décadas, temos visto que poetas, com medo de escreverem na linha de uma tradição, preferiram escrever em prosa e chamá-la de poesia, para fazerem algo diferente. Neste caso, a única diferença entre poesia e prosa seria a utilização da palavra no espaço em branco, o que nos parece demasiado simplista. Primeiro, não vemos por que temer a tradição; segundo, porque cremos que há diferenças várias que podem caracterizar a poesia, distinguindo-a da prosa, seja um conto, um romance ou uma peça teatral.
Podemos analisar vários poemas de Manuel Bandeira para discutir a presença da prosa na poesia e as suas variações. Sugerimos Pneumo-tórax, Poema tirado de um notícia de jornal, Noturno da rua da Lapa e O desmemoriado de Vigário Geral. Seria bom aproveitarmos estes textos para vermos as diferenças entre um universo prosaico e a linguagem prosaica. Os temas do cotidiano passam a conquistar espaço na poesia pós-modernista e o linguajar de gírias e expressões populares também, mas isto não significa que ambos estejam sempre juntos.
Que tal depois propormos o seguinte exercício? Escolhem-se poemas dos anos 20 para cá a fim de serem reescritos linearmente, sem a disposição em versos. Se o texto puder ser lido como um mini-conto ou minicrônica, por que chamá-lo de poema? E, ainda, se qualificamos tal poema de prosaico é porque no fundo sabemos que certas características textuais identificam a prosa, diferençando-a do poema. Então por que fingirmos que poema e prosa são a “mesma” coisa?
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