quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ALGUMAS QUESTÕES DE POESIA V


Na sétima estrofe, o poeta diz que o poema “não deve exibir cenas de nexo”. Primeiro, a substituição da palavra sexo, como seria de se esperar na frase, pela rima nexo causa a surpresa do humor. Técnica de humor à parte, a questão da arte hermética e inacessível também foi um dos valores do século XX. E, em muitos casos, podemos dizer que, quanto mais sem nexo, mais valorizado é o texto, sendo a falta de sentido identificada como o poético, a literariedade.
Temos que ter cuidado para mostrar a diferença entre uma proposta surrealista, que valorizava o arbitrário e o inconsciente, e o uso desconexo de palavras com a pretensão de ser literário. O surrealismo foi, sem dúvida, o movimento do início do século que teve mais desdobramentos, ainda que no Brasil só Murilo Mendes tenha sido reconhecido como poeta surrealista a merecer atenção. Mas há, por exemplo, em São Paulo um grupo de poetas surrealistas que é infelizmente pouco conhecido,  por razões óbvias de falta de divulgação da poesia, e faz jus a nossa leitura. Isto só para mostrar que, muitas décadas depois, esta “vanguarda’’ do início do século XX ainda tem ressonâncias.
Estamos diante de uma questão delicada: como objetivamente podemos dizer que o poema não tem nexo ou que ele tem um nexo próprio, uma coerência literária, que não pode ser lida pela lógica externa? Talvez seja um bom momento para falarmos da linguagem metafórica ou de figuras de linguagem. Várias destas figuras podem ser exemplo da “falta” de sentido, porque, na verdade, estão criando outro sentido, usando formas, há muito já estudadas e estabelecidas.
Só para lembrar, tiremos algumas figuras de Colóquio: metáfora (“ Poesia é matéria de fino esmeril.”), antítese (“sabem falar vazio de boca cheia.”), símile (“é como pimenta em doce de castanha.”)...


Marcus Vinicius Quiroga 












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